“Dois traços de caráter, duas paixões o distinguiam.
Pensava com justeza e extrema claridade. Possuía em raro grau o dom da pureza moral e da equidade, tinha sentimentos nobres.
Mas, par um sábio empenhado em lavrar caminhos novos, faltava-lhe a intuição, essa força cujas descobertas súbitas reviram a ordem estéril do previsível.
E, para que praticasse o bem, teria sido preciso que seu rigorismo se revestisse daquela tolerância do coração que ignora os casos gerais, só quer conhecer os casos particulares e atinge a grandeza fazendo coisas pequenas.
Desde a infância, Strelnikov aspirava a tudo que é grande e puro. Via na vida um imenso campo cercado, em que osomens lutavam para chegar à perfeição obedecendo a regras escrupulosas.
Quando compreendeu que as coisas não eram assim, não lhe ocorreu que errara em simplificar a ordem do mundo. Engolindo sua humilhação, começou a acariciar a idéia de que serviria de árbitro entre a vida e os princípios maus que a maculavam, de que tomaria sua defesa e a vingaria.
Sua decepção o enchera de cólera. A revolução deveria dar-lhe armas.”
---Extraído de O Doutor Jivago de Boris Pasternak
Obs.: meu maior ídolo atualmente...