por Larissa Fiodorovna
"A principal desgraça, a fonte do mal vindouro, foi a perda da fé na opinião pessoal. Imaginou-se que o tempo em que se seguiam as inspirações do senso moral estava passado, que agora era preciso embargar o passo dos outros e viver de ideias estranhas a todos e impostas a todos. A tirania da frase não deixou de crescer desde então, a princípio sob uma forma monárquica, em seguida sob uma forma revolucionária. Esse desvario da sociedade apoderou-se de tudo, contaminou tudo. Tudo caiu sob sua influência nefasta. Nosso próprio lar não pôde escapar a isso. Alguma coisa nele ficou abalada. Em lugar da vida natural que reinara, mesmo incoscientemente, nas nossas relações, viu-se infiltrar-se até nas nossas conversas um pouco dessa imbecilidade declamatória, uma necessidade imperativa de filosofar para exibição, sobre assuntos em moda, sobre a marcha do mundo. Poderia um homem fino e exigente para consigo mesmo, como Pasha, que distiguia com tanto rigor o que era essencial e o que era somente aparente, passar ao lado dessa mentira insinuante sem a notar? E foi aí que ele cometeu o erro fatal que deveria determinar todo futuro. Tomou os sinais do tempo, o mal social por um fenômeno de ordem doméstica. Relacionou consigo mesmo a artificialidade do tom, a frieza oficial de nossos raciocínios e disse a si mesmo que era um pedante, um medíocre, um homem de vistas estreitas. Parece-te sem dúvida inverossímel que tais estupidezas tenham podido desempenhar um papel na nossa vida comum. Não podes imaginar quanto isso foi importante, quantas tolices pacha inventou por causa dessa infantilidade. Partiu para a guerra, o que ninguém lhe exigia. Fez isto para nos libertar de sua presença, de sua imaginária tirania. Foi o começo de suas loucuras. Com um amor-próprio mal orientado de adolescente, ofendeu-se com alguma coisa, com a qual ninguém se ofende na vida. Pô-se a agastar-se contra o curso dos acontecimentos, a história. Indispôs-se com ela. E são ainda contas que ele toma conta com ela até hoje. Daí é que provem sua extravagância. provocante. Caminha para uma perda certa por causa dessa ambição estúpida."
Extraído de O Doutor Jivago de Boris Pasternak
terça-feira, 1 de junho de 2010
domingo, 3 de janeiro de 2010
O General Strelnikov
“Dois traços de caráter, duas paixões o distinguiam.
Pensava com justeza e extrema claridade. Possuía em raro grau o dom da pureza moral e da equidade, tinha sentimentos nobres.
Mas, par um sábio empenhado em lavrar caminhos novos, faltava-lhe a intuição, essa força cujas descobertas súbitas reviram a ordem estéril do previsível.
E, para que praticasse o bem, teria sido preciso que seu rigorismo se revestisse daquela tolerância do coração que ignora os casos gerais, só quer conhecer os casos particulares e atinge a grandeza fazendo coisas pequenas.
Desde a infância, Strelnikov aspirava a tudo que é grande e puro. Via na vida um imenso campo cercado, em que osomens lutavam para chegar à perfeição obedecendo a regras escrupulosas.
Quando compreendeu que as coisas não eram assim, não lhe ocorreu que errara em simplificar a ordem do mundo. Engolindo sua humilhação, começou a acariciar a idéia de que serviria de árbitro entre a vida e os princípios maus que a maculavam, de que tomaria sua defesa e a vingaria.
Sua decepção o enchera de cólera. A revolução deveria dar-lhe armas.”
---Extraído de O Doutor Jivago de Boris Pasternak
Obs.: meu maior ídolo atualmente...
Pensava com justeza e extrema claridade. Possuía em raro grau o dom da pureza moral e da equidade, tinha sentimentos nobres.
Mas, par um sábio empenhado em lavrar caminhos novos, faltava-lhe a intuição, essa força cujas descobertas súbitas reviram a ordem estéril do previsível.
E, para que praticasse o bem, teria sido preciso que seu rigorismo se revestisse daquela tolerância do coração que ignora os casos gerais, só quer conhecer os casos particulares e atinge a grandeza fazendo coisas pequenas.
Desde a infância, Strelnikov aspirava a tudo que é grande e puro. Via na vida um imenso campo cercado, em que osomens lutavam para chegar à perfeição obedecendo a regras escrupulosas.
Quando compreendeu que as coisas não eram assim, não lhe ocorreu que errara em simplificar a ordem do mundo. Engolindo sua humilhação, começou a acariciar a idéia de que serviria de árbitro entre a vida e os princípios maus que a maculavam, de que tomaria sua defesa e a vingaria.
Sua decepção o enchera de cólera. A revolução deveria dar-lhe armas.”
---Extraído de O Doutor Jivago de Boris Pasternak
Obs.: meu maior ídolo atualmente...
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